Gabriel, o pensador

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26 maio 2010
Gabriel, o pensador

CAVALEIRO ANDANTE – GABRIEL O PENSADOR

Em plena maturidade como homem e como artista (“a gente tá de passagem, mas num tá de bobeira”), Gabriel o Pensador volta à cena com Cavaleiro Andante, seu disco mais completo. O CD tem tudo o que o grande público já espera dele: balanço, ritmo, humor cáustico, sensualidade, metáforas brilhantes, métricas desconcertantes, e uma aguda percepção da realidade, a serviço do amor, sem o qual toda palavra nada vale. Mas, neste trabalho, Gabriel vai muito além de seus próprios jardins, explora como nunca os paradoxos, valoriza os contrários, desmonta os argumentos simplistas de caretas e salafrários com suas canetadas/caneladas certeiras.

Como um cavaleiro andante desta nossa Idade Mídia, brada sua espada lancinante, recortando em versos os flagrantes do nosso dia-a-dia, a mostrar para os bárbaros que contra a poesia ninguém nem nada pode (“a minha moda sempre muda, sou eu que dito/ não me incomodo se a manada não achar bonito”). O poeta está presente de cabo a rabo, da primeira à última faixa, interferindo nas mais diversas temáticas da realidade. Afinal, “quem disse que o rap não pode ter poesia?”

As ligações e citações literárias são evidentes e intencionais. Começa com a recriação genial de um poema de Drummond, o conhecidíssimo No meio do caminho. Gabriel atualiza o mote (“No meio do caminho pode ter uma pedra”), provoca desdobramentos (“mas no meio dessa pedra pode ter um caminho”), aponta deslumbramentos (“a pedra no caminho pode ser um diamante”). No arremate da música, um rap arrepiante, de tirar o fôlego.

Deixa Rolar, a segunda faixa, que conta com a charmosa participação de Negra Li, deixa você no clima, com seu suingue sangüíneo e carnal. E, mesmo aí, não custa realçar, o poeta gasta o português: “com muito jeito ainda consigo ser sujeito composto / e ela tem predicado pra me fazer de objeto / verbal, nominal, indireto e direto…”

Em Bossa 9, Gabriel pede licença a Tom Jobim e Vinicius de Moraes e detona, em diálogo direto com a dupla, uma recriação de Garota de Ipanema de ressuscitar defunto! A voz do maestro, que o tempo se encarregou de tornar até mais bonita, abre alas para um intenso desabafo do Pensador. Versos como “olha que coisa mais feia, arrastão na areia” fazem o contraponto às belezas da praia mais charmosa do Rio. O desfecho, num saboroso jogo de rimas internas e externas, é uma verdadeira declaração de princípios: “Deixa comigo, Poetinha, eu sou poeta também/ tudo que eu falo vem do coração, não sou um Vinicius / mas também tenho esse vício, cê me perdoa / sabe como é… inspiração / a gente vai rimando à toa, coisa ruim com coisa boa”.

Em plena maturidade, como já foi dito, Gabriel ampliou o olhar sobre as coisas, enriquecendo seu trabalho. Os versos ganharam sofisticação, sem perder a força. Itaal Shur, amigo pessoal de Gabriel, produtor e compositor americano já premiado pelo Grammy e apaixonado por música brasileira, responde por nove das onze faixas do CD. Ele deixou de lado as guitarras presentes no disco anterior e caprichou num certo acento soul, reforçando a cozinha com eventuais metais, synths, samples e scratches. O disco marca uma poderosa volta do rapper às programações de bateria eletrônica, das quais ele mesmo já se dizia saudoso, depois de uma longa turnê com o Ao Vivo MTV.

Fiel a seu estilo, O Pensador filtra, recorta, cola, edita, deita e rola, mixando todo tipo de informação (sonora, visual, cultural, política, social) às suas próprias referências autobiográficas. Daí resultam grandes painéis humanos/urbanos, em músicas como Tudo na mente (música e produção do DJ Leandro Neurose, pioneiro do rap carioca), Tempestade, 12 meses por ano e Sorria (a faixa, digamos assim, mais rock do CD) – esta com participação dos Detonautas.

Palavras Repetidas parte da mensagem de outro poeta pop, Renato Russo (“É preciso amar / as pessoas como se não houvesse amanhã”), para comentar o tenebroso mundo pós Bin Laden. O que restitui a esperança é a intervenção de Tom, filho de Gabriel, que também participa de Sem Neurose, um mantra do bem vitaminado pelo tema de 2001 – uma odisséia no espaço.

O Rap do Feio – que tem como tempero sonoro o clássico Que Beleza, do Tim Maia – vai com certeza levantar o traseiro e a auto-estima de muita gente por esse mundo afora. Da mesma forma, Tás a ver despertará no ouvinte uma irresistível vontade de acreditar na comunicação entre as pessoas, de conhecer outros povos. Produzida por Berna Ceppas e com a participação de Adriana Calcanhotto, esta música, aliás, apresenta alguns dos versos mais belos de toda a obra do Pensador: “Tás a ver? a linha do horizonte / a levitar, a evitar que o céu se desmonte / foi seguindo essa linha que notei / que o mar na verdade é uma ponte”.

O álbum, gravado em Nova York e no Rio de Janeiro, foi mixado por Troy Hightowers, um dos mais respeitados engenheiros de som de hip hop por lá. O brasileiro Éber Marcos, que faz o som dos shows de Gabriel, mixou três faixas, muito elogiadas pelos gringos. O disco teve a participação de músicos cubanos, israelenses, britânicos, pernambucanos, cariocas e paulistas, reforçando a idéia geral do encontro, exposta na supracitada Tás a ver…

Como bom cavaleiro andante, o Pensador não descansa sobre as glórias conquistadas: penetra cada vez mais fundo em cada veio que abriu ao longo de sua carreira, e continua rompendo fronteiras, navegando além-mares, em busca de sua melhor expressão.

Cavaleiro Andante é “biscoito fino para as massas” – diria outro poeta, o Oswald de Andrade.

Claufe Rodrigues – Maio de 2005

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